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Blog do Luiz Otávio

Memória e Cultura: uma responsabilidade Social.

Therezinha Tagé

Nosso dias são caracterizados pelo culto à velocidade e ao modismo. Descartar tornou-se a palavra de ordem no reino da novidade.Com este modo tão míope de olhar a vida poucas coisas restam para dar um sentido adequado à condição humana. Afinal, o que deve permanecer, o que vale a pena construir se, a qualquer momento e por nenhum motivo, tudo tende a desaparecer ?

Passando do plano pessoal para outro no qual estamos também muito envolvidos, surge a dimensão cultural, onde são equacionadas as relações entre o que acontece no cotidiano, a ação humana que desenvolve diante das necessidades encontradas para a sua preservação e as soluções criadas para realizá-las.

Estas questões vêm à tona quando pensamos sobre a responsabilidade dos pesquisadores, historiadores, sociólogos e cidadãos em geral, de tornar consciente para as novas gerações a importância de criar centros de cultivo da memória social, lugares especialmente organizados com o objetivo de reunir tudo o que deve e continua a ter uma significação, tudo o que permanece no meio da pressa e das distrações. Trata-se do cultivo da memória como um trabalho sistematizado, preparado para contar a nossa história a qualquer momento, como um recado permanente às gerações futuras.

Uma forma de realizar esta tarefa está na construção de museus, arquivos abertos ao público, exposições, preparação de acervos e instituições, nas empresas de todos os tipos possíveis. Entre estas últimas destacam-se evidentemente as empresas destinadas à produção dos veículos de comunicação, porque registram a vida imediata. Os arquivos dos jornais diários, das emissoras de televisão, os departamentos de documentação da grande companhias e escritórios de comércio, as bibliotecas, as universidades todos estes espaços precisam se transformar em fontes de preservação de nossa história diária, sempre dispostos a oferecer informações que geram conhecimento. Melhor, ainda, permitem-nos o autoconhecimento. Sem esta oportunidade, acabaremos perdendo o sentido de todas as razões que impulsionam nossos atos. Saberemos então as razões do que está acontecendo a cada momento e como tudo resulta de um passado que precisamos conhecer para não repetir o que não nos interessa mais, apesar da pressa.

Um exemplo de utilidade e de importância destes verdadeiros reservatórios de cultura e de conhecimento pode ser encontrado na Unicamp nos Arquivos Edgard Leuenroth, muito considerados pela diversidade temática de seu acervo que reúne documentos sobre questões atuais e centrais nos estudos sobre a história das esquerdas brasileiras, principalmente o movimento operário, o processo de industrialização, as transformações do conceito de trabalho, sobre os direitos humanos, problemas referentes às considerações sobre cidadania, fundamentos relativos à política e à cultura brasileira contemporânea e outras expressões de nossa forma de viver, o que comprova a grande contribuição deste espaço de estudos para a pesquisa histórica e das ciências sociais. Leuenroth (1881 - 1968) foi um dos fundadores da Federação Operária de São Paulo (1905). Seu arquivo é considerado o mais rico sobre o movimento operário em nosso país.

Num momento em que se torna cada dia mais evidente a necessidade de procedimentos multidisciplinares na busca de informações para abarcar com mais profundidade as interpretações sobre os fatos e as especializações desaparecem, arquivos de memória social são indispensáveis e o que prevalece é o trabalho de equipes. Há uma ênfase na prática do pensamento crítico, da não aceitação das explicações fáceis ou esquemáticas. Os modelos explicativos dos fatos que ignoram as experiências particulares tendem a desaparecer.

O recurso metodológico do "estudo de caso" é muito recomendado visando a um desenvolvimento mais direto da história como ciência. As questões relacionadas ao distanciamento e à objetividade na reconstrução das situações relevantes começaram a ser construídas pela vantagem de captar outras versões da história oficial. Há quem prefira o tom confessional e por esta razão estão sendo valorizados e considerados como documentos os textos de jornais, as entrevistas ao vivo posteriormente editadas, recortes de revistas especializadas ou de atualidades.

Todos estes objetos especializados no resgate da memória podem ser o último meio de reconstruir o que ainda sobrar deste mundo veloz se não for descuidado e até desprezado. Os adeptos do campo da "nova história" valorizam estes fragmentos porque, unidos, podem fazer o "trabalho da memória" e desconstruir ou completar as versões oficiais da história que omitem ou mitificam o que acontece. Por todas estas razões, vamos esperar pela formação dos arquivos de pesquisas nos jornais, nas instituições responsáveis, devidamente informatizadas para quem tem pressa.

Terezinha Fátima Tagé Dias Fernandes - Pesquisadora e professora no Departamento de jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Possui graduação em Letras Neolatinas pela Universidade Católica de Santos (1965) , mestrado em Letras Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (1982) e doutorado em Ciências da Comunicação Jornalismo e Editoração pela Universidade de São Paulo Escola de Comunicações e Artes (1988) . Atualmente é Professora Doutora da Universidade de São Paulo, Consultor Ad hoc da Universidade de Brasília e Consultora da Universidade Católica de Brasília. Tem experiência na área de Comunicação. Atuando principalmente nos seguintes temas: Discurso jornalístico e Literatura, Jorge Andrade, Revista "Realidade", Jornalismo e Censura Política, Jornalismo e Intertextualidade e Mídia nos Anos 70.

 

 

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